Momento da Verdade: Ouro ou Shopping Center?

Texto de Alessandro Zelesco -Engenheiro, remador máster e dirigente esportivo

Fonte: ett@ippur.ufrj.br

Entendemos que a escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olimpícos de 2016 obriga o poder público a olhar responsavelmente para o esporte, em respeito à vontade coletiva do povo brasileiro para a conquista de medalhas. Chegou o momento de unir esforços para ajudar as federações esportivas na imensa tarefa de formar e capacitar atletas para disputarem o pódio em competições de nível internacional. A meta é plenamente atingível, se houver sinceridade de propósito e anos de trabalho sério. O quadro atual, no entanto, é desolador.

Apesar de sediar as competições de remo e canoagem dos Jogos Olímpicos de 2016, o Estádio de Remo da Lagoa já tem seu destino selado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro: será transformado em Shopping Center! 

Com cinemas, praça de alimentação e lojas, servirá para enfurnar pessoas em salas escuras num local que é considerado “cartão postal” do Rio de Janeiro. O generoso espaço ao ar livre a beira da Lagoa já está sendo usado para estacionamento de veículos.

Na verdade é uma área publica subtraída da população. Quatorze associações de moradores da Zona Sul carioca manifestaram repudio a projetos que desvirtuem a finalidade esportiva original do Estádio de Remo. A transformação de uma área publica esportiva em shopping center, contra a vontade dos moradores e da comunidade esportiva, é um acinte à democracia.

Nada disso, no entanto, sensibiliza o governo do Estado do Rio de Janeiro, dono da área. E a Prefeitura também faz a sua parte neste crime de lesa patrimônio, pois simplesmente ignora a Lei de tombamento do estádio promulgada pela Câmara de Vereadores e concede licença de obra para destruição do único prédio publico de arquitetura modernista da Zona Sul carioca. 

Os interesses por trás deste empreendimento criminoso são tão fortes que, em 2006, mesmo com a presença de um Oficial de Justiça com liminar em mãos, a Procuradoria Geral do Estado ordenou a implosão de uma arquibancada só para depois reconstruí-la no mesmo lugar com uma volumetria adequada às salas de cinema no seu interior. Usaram dinheiro público para fins privados. Tudo sob a cortina de fumaça do Pan e o silencio da mídia.

Por cederem uma área publica sem licitação, o Ministério Publico ajuizou Ação Civil Publica tendo a Federação de Remo como assistente. Esta ação judicial no momento (fev/2011) encontra-se em Brasília com o relator do processo, ministro Mauro Campbel, do Superior Tribunal de Justiça.

A escolha da cidade para sediar as Olimpíadas de 2016 não pode ignorar a necessidade de um centro de treinamento de remo há muito tempo almejado para o local.

O governo estadual deveria retomar a posse do Estádio de Remo da Lagoa para executar um projeto de revitalização que atenda aos interesses do esporte e da população.

Um projeto auto sustentável de revitalização do Estádio de Remo com atividades ao ar livre, elaborado pela Federação de Remo como contribuição ao poder público e aprovado pelo Ministério do Esporte, pode ser visto no site www.remo2016.com.br

Rio 2016 e uso esportivo do Estádio de Remo

Grande parte do Estádio de Remo, há mais de uma década, permanece ocupada por uma empresa privada que teima em transformá-lo em shopping center. Para tanto não hesita em prejudicar o esporte, como foi o caso do aterramento e conseqüente eliminação de um tanque de treinamento de remo. O mesmo se aplica à rampa de concreto para colocação de lanchas de treinamento na água, que se encontra destruída e não foi recuperada durante as obras do Pan-2007.

O Estádio de Remo da Lagoa é um bem tombado que não está sendo preservado. Ao arrepio da Lei tenta-se alterar a característica esportiva do imóvel. O Estádio de Remo foi destinado para atividades esportivas e de lazer contemplativo ao ar livre. Leis existem para serem respeitadas. A Lei 4149 (10/08/2005), da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, diz textualmente que “fica também preservado o uso do Estádio de Remo da Lagoa a ser resgatado para o desenvolvimento do esporte remo e de outras atividades esportivas ao ar livre”.

Também a Lei n° 905/57 do antigo Distrito Federal não está sendo respeitada. A sociedade, através desta lei, designou o Estádio de Remo para uso da Federação de Remo. E a federação de remo, há mais de 50 anos no local, vem cumprindo com o estabelecido em lei, mantendo a destinação e o uso esportivo do Estádio de Remo, fomentando o esporte e realizando regatas, ininteruptamente.

A pretexto do Pan, uma arquibancada foi implodida e reconstruída de acordo com as necessidades arquitetônicas dos cinemas e shopping center. Obra realizada com dinheiro público, contra a vontade dos desportistas e da população. Dinheiro público para benefício exclusivo de uma empresa privada que hoje ocupa 90% da área esportiva do estádio. Não há espaço para o desenvolvimento do remo. Não há espaço para aulas de educação física. Não há espaço para projetos esportivos de inclusão social. Não há mais espaço para o esporte no Estádio de Remo da Lagoa.

Para buscarmos o ouro em 2016 é necessário agir agora. O Estádio de Remo retornará para o remo ou permanecerá privatizado e maquiado para os Jogos? Como capacitar atletas sem um centro de treinamento adequado? Como buscar medalhas sem espaço para o desenvolvimento do esporte? 

Necessidade de um Centro de Treinamento de Remo

O remo olímpico brasileiro não tem um Centro de Treinamento adequado às exigências de alto rendimento do esporte. O Estádio de Remo é o último espaço para desenvolvimento do remo olímpico na Lagoa Rodrigo de Freitas. O remo brasileiro há décadas carece de um Centro de Treinamento e, não por acaso, há décadas não consegue resultados expressivos internacionais.

Dotado de uma raia de remo em pleno centro urbano, num dos locais mais belos da cidade, o Estádio de Remo da Lagoa deveria ser revitalizado com atividades ao ar livre, geradoras de renda para sua manutenção e subsídio ao selecionado brasileiro de remo.

Isso acontece em outros centros náuticos ao redor do mundo, que exploram atividades ao ar livre e revertem parte das receitas para subsidiar suas seleções nacionais. Além disso, um centro de treinamento de alta performance no Estádio de Remo permitiria intercambio internacional. Nossos atletas poderiam ter contato com grandes guarnições e com muitos adversários que posteriormente encontrarão nos campos de regatas internacionais.

O projeto de revitalização defendido pela FRERJ tem como objetivo fundamental a revitalização econômica auto-sustentável do Estádio de Remo da Lagoa.

A implementação das atividades descritas no projeto de revitalização permitirá transformar o atual Estádio em um Parque Temático de Remo, para resgate do contato da população carioca com o remo.

A recuperação do remo carioca e brasileiro passa pelo desafio de administrar criativamente o Estádio de Remo da Lagoa, com uma política de utilização do espaço voltada para o esporte, similarmente ao realizado em outros parques náuticos no mundo, onde há a preocupação com o uso diário de áreas públicas pela população e para o desenvolvimento de esportes náuticos.

O resgate, criativo e inovador, do uso esportivo do Estádio de Remo é a única maneira de garantir que seu espaço beneficie realmente todas as camadas sociais da população carioca e é para este fim que o projeto da FRERJ se destina.

O projeto da FRERJ foi elogiado em parecer técnico elaborado pela Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, cujos parágrafos finais estão abaixo reproduzidos:

“Justifica-se a proposta de atendimento total do pleito, considerando que a realização do projeto contempla todos os fatores primordiais à área, tais como:

- A preservação arquitetônica e histórica do espaço, respeitando a liberação da vista da lagoa como bem tombado;

- Priorização da atividade fim, que é o Remo, através de idéias como a do Centro de Treinamento de Alto Rendimento ou o Projeto Navegar num local estratégico na cidade para promoção e fomento do esporte ou ainda, o Turismo – Rowing in Rio, onde teria-se a oportunidade de remar num dos cartões postais mais conhecidos da cidade, sob o Cristo Redentor.

Entendemos que a proposta é coerente com as metas da Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, inclusive em termos das ações estratégicas, no que busca a ampliação e o desenvolvimento cada vez maior do esporte competitivo em todas as suas modalidades.

Sugiro que a instituição apóie a idéia do “Projeto de Revitalização da Lagoa” pois seus argumentos estão em plena concordância com os objetivos maiores deste Ministério.”

Portanto, as opções são claras.

Enfurnar pessoas em salas escuras a beira da Lagoa ou criar um Centro de Treinamento ao ar livre de nível internacional? Shopping Center ou Parque Temático de Remo? Entregar um bem público para enriquecimento de alguns ou administrá-lo criativamente para que gere receitas para sua manutenção e subsídio ao esporte?

Se você não concorda com este escândalo acobertado pelo poder publico estadual e municipal, manifeste sua indignação e proteste com os políticos que governam nossa cidade e estado.

Quem destrói nossa qualidade de vida não merece nosso voto!

Alessandro Zelesco

Engenheiro, remador máster e dirigente esportivo

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