As casas decimais do Maracanã

Por Licio Monteiro*

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As cifras por trás de grandes obras no Estado do Rio de Janeiro nos colocam diante do problema que é a ordem de grandeza.

Em nosso dia-a-dia, para pagar passagem, almoçar ou comprar um jornal, poucas vezes saímos da casa da unidade, da dezena e dos centavos. O salário mínimo fica na casa das centenas. Lá também estão a compra de mês e o plano de saúde daqueles que podem gastar com isso. O aluguel com certeza hoje no Rio de Janeiro está cada vez mais na casa do milhar. A dezena de milhar fica guardada para aqueles dias no ano em que se faz declaração de imposto de renda, quando nos obrigam a somar todos os salários do ano, e mesmo assim para grande parte da população não se chega a essa casa – para alguns isso chega à casa seguinte. A centena de milhar pode ficar guardada durante anos, à espera de um milagre, ou naquele dia da tão sonhada casa própria, que também nunca chega para a maiorira. O milhão é coisa que está guardada no imaginário da loteria, do jogo de perguntas do Sílvio Santos ou do Big Brother. A partir dessa casa decimal, qualquer coisa que se diga ou é especulação ou faz parte de outro círculo de amizades de que poucos podem participar.

E nesse universo dos milhões, seis casas decimais acima do cafezinho mais barato do bairro, é que começamos a falar sobre os custos e os preços da obra no Maracanã e de sua posterior gestão.

  • R$ 2,3 milhões é quanto foi pago para os estudos de viabilidade do projeto de reforma do Maracanã, feitos pela IMX.
  • R$ 7 milhões é quanto os novos donos do pedaço pagarão por ano ao Estado para usufruir do Maraca. Esse valor será pago em 33 parcelas, que começam a ser pagas 2 anos depois do início da concessão.
  • R$ 10 milhões foi o valor gasto para a reforma do Parque Aquático Júlio Delamare, para abrigar o polo aquático no Pan-2007. Menos de 6 anos depois, a licitação do Maracanã obriga os novos donos a demolirem esse parque.
  • R$ 50 milhões é a despesa média anual que a concessionária terá para a manutenção de todo o complexo do Maracanã.
  • R$ 92 milhões foi o custo da última reforma do Maracanazinho, para o Pan-2007. O atual projeto prevê uma nova reforma.
    Aí chegamos à casa das centenas de milhões.
  • R$ 154 milhões é a receita anual prevista para o Maracanã. Donde se conclui que…
  • R$ 104 milhões é o saldo positivo que a concessionária terá ao subtrair a despesa anual de R$ 50 milhões.
  • R$ 231 milhões é a soma total dos valores anuais de R$ 7 milhões vezes 33 pagos pela concessão. Esse é o dinheiro que sairá do bolso das empresas e entrará no orçamento do Estado em 35 anos.
  • R$ 237 milhões é o valor estimado do custo da reforma do Maracanã para o Mundial de Clubes do ano 2000 (Estimado pelo jornalista João Carlos Assumpção, do Lancenet, em 17 de agosto de 2011, com ajuda do economista Francisco Pessoa).
  • R$ 397 milhões é o valor estimado do custo da reforma do Maracanã para o Pan-2007 (mesma fonte do dado anterior).
  • R$ 469 milhões é o valor que será gasto pelas concessionárias em obras adicionais nos próximos 35 anos, além dos…
  • R$ 869 milhões (R$ 9 milhões acima da última previsão oficial e R$ 164 milhões acima na previsão inicial do custo da obra, que era de R$ 705 milhões) gastos pelo Estado (somando todos os níveis de governo) para a atual reforma do Maracanã.

O importante agora é não se perder na passagem entre as casas decimais, pois passaremos à ordem dos bilhões.

Somando os R$ 869 milhões gastos pelo Estado aos R$ 469 milhões que serão desembolsados pela concessionária chegamos ao valor de R$ 1,33 bilhão.

Mas podemos somar esse valor ao que já foi gasto em 2000 e 2007 e chegaremos à incrível quantia de R$ 1,97 bilhão gastos na reforma do Maracanã. Desse valor, mais de 76% corresponde ao custo assumido pelo Estado, que só terá de volta R$ 231 milhões (menos de 12% do investimento) em 35 anos. Um prejuízo de R$ 1,27 bilhão. Esse é o prejuízo que será dividido entre todos nós.

Mas ainda não chegamos ao maior numeral possível dentro nessa licitação do Maracanã. Vejam as contas. Se o lucro anual estimado pela gestão do Maracanã é de R$ 104 milhões de reais, temos que multiplicar esse valor por 35, o que daria o montante de R$ 3,64 bilhões. Descontando os R$ 231 milhões pagos em 33 parcelas de R$ 7 milhões, mais o gasto de R$ 469 em obras que a concessionária terá que desembolsar, chegamos ao valor final do lucro estimado em… R$ 2,94 bilhões ao final de 35 anos. Um lucro de pelo menos R$ 2,94 bilhões que não será dividido entre nós.

A conta final apresentada pelo Globo.com é de R$ 2,5 bilhões de lucro final. Mas a essa altura do campeonato R$ 440 milhões passa a ser quase um detalhe.

Essa foi a conta final a que cheguei. Quem puder refazê-la com melhores fontes e menos sono, fique à vontade. Eu usei a página do Globo que os amigos compartilharam aí na internet.

Só gostaria de observar ainda três pontos nisso tudo.

Primeiro, uma parte considerável desses R$ 469 milhões previstos como gastos de contrapartida da concessionária corresponde à reconstrução de equipamentos esportivos já existentes – como o Parque Aquático e o Estádio de Atletismo – reformados há bem pouco tempo para o Pan-2007.

A segunda observação é a contínua necessidade de reformas do Maracanã, feitas com verbas do Estado. Se foram necessários R$ 237 milhões para um evento em 2000, R$ 397 milhões para um evento em 2007, R$ 869 milhões para um novo evento em 2014, temos em média uma grande reforma a cada 7 anos, a um custo médio – embora sempre crescente – de R$ 500 milhões aproximadamente. Qualquer reforma além dos R$ 469 milhões já previstos como custo para as empresas que assumirão a concessão do Maracanã deverá ser desembolsado novamente pelo Estado – se alguém tiver alguma informação diferente desta, por favor, me corrija. Dessa forma, a relação entre o valor gasto pelo Estado, o custo assumido pela concessionária e os lucros obtidos pela mesma tendem a ser ainda mais vantajosa às empresas que irão assumir a concessão.

A terceira observação é a de que até agora só se falou dos valores das reformas do Maracanã, mas não estimativa para contabilizar o quanto vale tudo o que está em jogo nessa transação. Nem digo em termos de valores simbólicos e intangíveis, mas valores como, por exemplo, o do terreno ocupado por todo o complexo do novo empreendimento que será o Maracanã – só para começar.

São dez casas decimais de lucro para os empresários que assumirão esse grande negócio que se tornou o Maracanã. Ninguém mora nessas casas. Não há CEP ao qual endereçar uma carta. Não há vizinhança, calçadas e praças em volta delas. Mas essas parecem ser as casas mais rígidas, intransponíveis e bem protegidas da nossa cidade.

* Licio Monteiro – doutorando em Geografia da UFRJ

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Movimentos sociais e grupos de atingidos pelas obras do Maracanã lançam Consulta Pública Popular nesta terça em frente ao Palácio Guanabara

Ato acontecerá às 9h, uma hora antes da abertura das propostas de privatização pelo Governo do Estado

Nesta terça-feira, a partir de 9h, atletas, pais de alunos, torcedores, pesquisadores de universidades federais e cidadãos cariocas estarão reunidos em frente ao Palácio Guanabara para o lançamento da Consulta Pública Popular do Maracanã. A Consulta está sendo lançada em meio ao processo de licitação do Maracanã, que amanhã terá mais uma etapa acontecendo no Palácio Guanabara a partir de 10h. Os organizadores da Consulta Pública Popular do Maracanã estarão disponíveis para a imprensa em frente ao Palácio a partir de 9h para explicar detalhes sobre o projeto e quais as expectativas dos grupos e entidades envolvidos. Eles também pretendem ser ouvidos pelo Governo do Estado.

Conheça o projeto em http://consulta.omaracaenosso.org.br

Organizada pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas em parceria com os grupos afetados pela privatização do Maracanã, e coordenada pelo Observatório das Metrópoles do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ (IPPUR/UFRJ), a Consulta pretende dar espaço para a participação de qualquer pessoa, grupo ou entidade que queira debater e documentar suas propostas sobre qual a configuração e o modelo de gestão que seriam mais proveitosos para o Complexo do Maracanã e para a cidade do Rio de Janeiro. O projeto se baseia em processos de consulta pública realizados através da internet por governos e instituições públicas no Brasil e em outros países.

SERVIÇO

Coletiva de Imprensa e Lançamento da Consulta Pública Popular do Maracanã
Terça-feira, 16 de abril, às 9h
Local: Em frente ao Palácio Guanabara, Rua Pinheiro Machado, Laranjeiras

Mais informações e assessoria:
Gustavo Mehl – 21 7908-5548
Mario Campagnani – 21 9849-2025

Mentiras que continuam sendo repetidas sobre o Maracanã, no momento em que se fecha mais um equipamento esportivo, o Parque Aquático Júlio Delamare

Não é verdade que os equipamentos esportivos, sociais e culturais do entorno do Maracanã estão sendo destruídos para a Copa do Mundo, como vem sendo repetido insistentemente. Há pelo menos dois projetos oficiais de reforma do Maracanã já divulgados – um pela Odebrecht, contratada pelo governo do Estado para reformar o estádio; e outro pela Prefeitura do Rio, responsável pelas obras do entorno – que preservam o Parque Aquático Júlio Delamare (imagem). As demolições aparecem como uma demanda da empresa de Eike Batista, a IMX, quando é divulgada a intenção de se privatizar o estádio. Não podemos aceitar e naturalizar as demolições de espaços públicos que servem à população para repassar a empresas privadas!

No fim da reportagem que o Sportv divulgou há dois dias (veja acima) o governo do Estado diz não saber se o parque aquático vai virar um estacionamento, essa seria uma decisão da concessionária! Prejudicar milhares de pessoas entre atletas, idosos, deficientes físicos e crianças e nem ao menos saber porque É INACEITÁVEL! Não se trata de esporte olímpico x futebol, Olimpíadas x Copa do Mundo, como querem dar a entender. Trata-se de esporte brasileiro x ganância privada! Não deixaremos! Amanhã (1/4), às 8h, usuários do Julio Delamare farão um ato público na porta do parque aquático. E no dia 11/4, no Largo do Machado, todos preparados para um grande ato de rua contra a privatização do Maracanã! Mais informações em breve!

O MARACA É NOSSO!

A CIDADE É NOSSA! Veja as imagens do ato no Maracanã

Cerca de 500 pessoas se reuniram vamos na Praça Saens Peña, na Tijuca, no último sábado (16), e caminharam até o Maracanã. O ato ato A CIDADE É NOSSA! teve o objetivo de denunciar o processo de privatização de diversos espaços públicos da cidade, como a Marina da Glória e o Maracanã. No entorno do estádio, está prevista a destruição da Escola Friedenreich, da Aldeia Maracanã, do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare para a construção de lojas, bares e estacionamentos para servir a um shopping gerido pela empresa ganhadora da licitação. O ato lançou também o álbum de figurinhas da campanha O MARACA É NOSSO! Conheça aqui: www.omaracaenosso.org.br/.

PRIVATIZAÇÃO DO MARACANÃ: O choro do alto do pódio substituído pelo choro de quem pode não ter onde treinar

Monica Lages do Amaral no seminário "O Maraca é Nosso!" no dia 28 de fevereiro. (Foto: Paula Kossatz)

Monica Lages do Amaral no seminário “O Maraca é Nosso!”. (Foto: Paula Kossatz)

A atleta Monica Lages do Amaral, de 19 anos, da Seleção Brasileira Juvenil de Saltos Ornamentais, se emocionou ao falar no último dia 28 de fevereiro da possibilidade de perder a única piscina adequada ao esporte de alto nível no estado, a do Parque Aquático Julio Delamare. O local está ameaçado de ser demolido para dar lugar a um shopping e a um estacionamento após a privatização do Maracanã.

“Estou há treze anos treinando diariamente. Tão perto das Olimpíadas na minha cidade, que pode ser a minha primeira, o processo vai ser interrompido. Querem passar a gente para o (Parque Aquático) Maria Lenk, mas lá não tem estrutura para os saltos. Só que não há ninguém preocupado com isso além da gente. O foco para 2016 não está em medalhas, mas no dinheiro”, disse Monica.

Pontapé inicial da consulta pública para gestão do Maracanã foi dado na ABI

O pontapé inicial da Consulta Pública para Gestão do Complexo do Maracanã foi dado nesta quinta-feira, dia 28, no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio. A proposta do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas é fazer exatamente o que o governo estadual esqueceu, um debate democrático, no qual os donos do complexo – a população como um todo e especialmente seus usuários – serão ouvidos sobre o futuro do estádio e dos equipamentos no seu entorno, explica Gustavo Mehl:

“Queremos mostrar ao governo que a população está mobilizada, que pode oferecer uma resposta à absurda venda, feita sem nenhum tipo de diálogo. Hoje (quinta-feira), começamos a receber sugestões pelo email consultadomaraca@gmail.com, mas na próxima semana vamos colocar no ar uma ferramenta específica para coleta de opiniões”.

Os principais afetados pelo processo irregular de concessão do Maracanã – atletas, estudantes e seus pais, torcedores e indígenas – estiveram na segunda mesa, na qual destacaram a intransigência com a qual vêm sendo tratados. A atleta Monica Lages do Amaral, de 19 anos, da Seleção Brasileira Juvenil de Saltos Ornamentais, se emocionou ao falar da possibilidade de perder a única piscina adequada ao esporte no estado, a do Parque Aquático Julio Delamare, que pode ser demolida para dar lugar a um shopping e a um estacionamento.

“Quando chega nas Olimpíadas, todo mundo fala que não há resultado. Mas, se olhamos direito, vemos que o problema é que não há uma estrutura. Estou há treze anos treinando diariamente. Tão perto das Olimpíadas na minha cidade, que pode ser a minha primeira, o processo vai ser interrompido. Querem passar a gente para o (Parque Aquático) Maria Lenk, mas lá não tem estrutura para os saltos. Só que não há ninguém preocupado com isso além da gente. O foco para 2016 não está em medalhas, mas no dinheiro”, disse Monica.

Na primeira mesa, os deputados estaduais Marcelo Freixo, Clarissa Garotinho e Paulo Ramos, além dos vereadores Renato Cinco e Reimont, debateram caminhos que o Legislativo pode adotar para tentar barrar a privatização do estádio.

Veja as imagens do evento:

ENTREGUE! Carta contra a demolição do Estádio Célio de Barros ao Ministério dos Esportes e à Presidência da República

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Os amigos do Comite Popular da Copa – DF entregaram nesta quinta-feira documento contra a demolição do Estádio Célio de Barros, assinado por grandes estrelas do atletismo como a medalhista de ouro Maurren Maggi e por federações do Brasil e do mundo, além do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas. Até a IAAF, a FIFA do atletismo, já se pronunciou contra a demolição do Estádio!

ALÔ PRESIDENTA DILMA! ALÔ MINISTRO ALDO REBELO! A BOLA ESTÁ COM VOCÊS! O MARACA É NOSSO!

URGENTE! A IAAF, A FIFA DO ATLETISMO, É CONTRA A DEMOLIÇÃO DO CÉLIO DE BARROS!

Uma carta foi enviada ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no dia 4 de fevereiro, poucos dias após o ato contra a demolição do estádio!

“Esta notícia provocou uma grande decepção em todos nós. É meu dever chamar sua gentil atenção para as consequências muito negativas que a destruição do estádio Célio de Barros teria sobre a imagem de sua cidade aos olhos da comunidade do atletismo mundial, e também no desenvolvimento do nosso esporte tanto em seu país como em toda a América do Sul. Portanto, apelo para o seu bom senso e de sua equipe para reconsiderar esta posição e fazer desta histórica instalação um legado permanente para os jovens brasileiros”.

Lamine Diack, presidente da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF).

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